Artigo escrito por Katia Chedid educadora e especialista em Neurociência aplicada à Educação e colaboradora do Blog da AB+
Quando me convidaram para falar sobre inteligência artificial, saúde mental e a escola do amanhã, pensei que talvez estivéssemos falando de três temas diferentes.
Mas, quanto mais observo o que acontece nas escolas, mais percebo que estamos falando, na verdade, da mesma questão:
Que escola precisamos construir para seres humanos que estão aprendendo a viver em um mundo profundamente transformado pela tecnologia?
Eu trabalho há mais de 40 anos com educação. Já passei por diferentes segmentos, diferentes funções e diferentes momentos da escola brasileira.
E hoje, acompanhando escolas e estudantes em contextos muito diversos, uma coisa me parece cada vez mais clara:
a escola do amanhã não pode ser apenas uma escola mais tecnológica. Ela precisa ser uma escola mais humana.
E isso pode parecer contraditório quando estamos justamente vivendo a expansão da inteligência artificial.
Mas não é.
A inteligência artificial muda uma pergunta fundamental da escola
Durante muito tempo, grande parte da escola foi organizada em torno da transmissão de informação.
O professor explicava.
O aluno registrava.
Estudava.
E depois demonstrava que sabia aquela informação.
Agora temos uma tecnologia capaz de produzir textos, resumir conteúdos, explicar conceitos, resolver problemas, criar imagens, organizar ideias e responder perguntas em segundos.
Isso nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável:
Se uma máquina consegue realizar parte das tarefas que tradicionalmente pedimos aos alunos, o que realmente queremos que eles aprendam?
Para mim, essa é uma das perguntas mais importantes para a escola do amanhã.
Porque aprender não é simplesmente produzir uma resposta.
Aprender significa construir conhecimento, estabelecer relações, recuperar informações da memória, analisar, argumentar, criar hipóteses, rever o próprio pensamento.
E aqui existe um risco importante.
A IA pode ampliar enormemente a aprendizagem, mas também pode retirar do aluno justamente o esforço cognitivo necessário para aprender.
Se eu peço a um aluno que escreva um texto e a inteligência artificial escreve por ele, temos um texto pronto.
Mas não necessariamente tivemos aprendizagem.
Se a IA resume tudo, organiza tudo, responde tudo e pensa todas as relações pelo estudante, precisamos perguntar:
quem realizou o trabalho cognitivo?
Essa pergunta deveria acompanhar cada decisão sobre inteligência artificial na escola.
Não devemos perguntar apenas:
“Podemos usar IA nesta atividade?”
Talvez a pergunta mais importante seja:
“Nesta atividade, o que precisa continuar sendo feito pelo cérebro do aluno?”
E isso nos leva à saúde mental
Porque estamos diante de uma geração que vive uma experiência muito particular.
Nunca tivemos tanto acesso à informação, tanta possibilidade de comunicação e tantas ferramentas para facilitar a vida.
E, ao mesmo tempo, nossas escolas convivem diariamente com ansiedade, dificuldades de autorregulação, conflitos, problemas de convivência, sensação de não pertencimento e sofrimento emocional.
A tecnologia não explica tudo isso.
Seria simplista responsabilizar apenas celulares, redes sociais ou inteligência artificial pela saúde mental dos nossos estudantes.
Mas também seria ingênuo ignorar que o ambiente digital passou a fazer parte do ambiente de desenvolvimento dessas crianças e adolescentes.
Hoje, a escola não disputa apenas a atenção do aluno com aquilo que acontece dentro da sala.
Ela disputa atenção com notificações, vídeos curtos, jogos, redes sociais e uma quantidade praticamente infinita de estímulos.
E atenção é um recurso limitado.
Autorregulação também precisa ser desenvolvida.
Esperar que uma criança ou um adolescente consiga sozinho administrar um ambiente desenhado para capturar sua atenção é colocar sobre ele uma responsabilidade que também é dos adultos.
Por isso, acredito que a escola do amanhã terá uma função que talvez seja ainda mais importante do que no passado:
ensinar autorregulação.
Ensinar a esperar.
Ensinar a sustentar atenção.
Ensinar a lidar com frustração.
Ensinar a organizar o tempo.
Ensinar a conviver.
Ensinar a pedir ajuda.
Ensinar a perceber o próprio processo de aprendizagem.
Em outras palavras, desenvolver funções executivas e metacognição não será um complemento do currículo.
Será parte da preparação para viver neste novo mundo.
Mas saúde mental na escola não significa transformar professor em terapeuta
Essa distinção é fundamental.
O professor precisa saber acolher, observar mudanças importantes de comportamento, reconhecer sinais de alerta e conhecer os fluxos de encaminhamento.
Mas ele não precisa — e não deve — assumir funções para as quais não foi formado.
A escola precisa construir ambientes protetivos.
E ambiente protetivo não significa uma escola em que ninguém se frustra ou em que eliminamos qualquer dificuldade.
Significa uma escola em que o aluno encontra adultos previsíveis, relações respeitosas, regras claras, possibilidade de pertencimento e segurança para pedir ajuda.
Às vezes, quando falamos de saúde mental, pensamos imediatamente em grandes programas.
Mas pequenas experiências cotidianas também importam.
Um professor que sabe o nome do aluno.
Um adulto que percebe uma mudança de comportamento.
Uma escola que intervém diante de uma humilhação.
Um estudante que sabe a quem procurar quando alguma coisa não está bem.
Pertencimento também é proteção.
Então, como imagino a escola do amanhã?
Curiosamente, quanto mais tecnologia tivermos, mais importantes serão algumas capacidades profundamente humanas.
A escola do amanhã precisará ensinar o aluno a usar inteligência artificial.
Mas também precisará ensiná-lo a pensar sem ela.
Precisará ensinar a pesquisar com IA.
Mas também a verificar se aquilo que recebeu é verdadeiro.
Precisará ensinar a produzir com tecnologia.
Mas também a perguntar:
“Eu compreendi isso?”
“Consigo explicar com minhas próprias palavras?”
“Que evidência sustenta essa resposta?”
“Essa decisão é minha ou apenas aceitei o que o algoritmo me ofereceu?”
Talvez uma das competências mais importantes do futuro seja justamente esta:
saber quando usar a tecnologia e saber quando não usá-la.
E existe algo que nenhuma inteligência artificial substitui
A relação humana que sustenta a aprendizagem.
Um aluno não aprende apenas porque recebeu uma boa explicação.
Ele aprende também porque alguém percebe quando ele não entendeu.
Porque alguém oferece feedback.
Porque alguém acredita que ele consegue avançar.
Porque alguém estabelece limites.
Porque alguém o ajuda a tentar novamente.
Tecnologia pode personalizar exercícios.
Pode ajudar professores a analisar informações.
Pode produzir materiais.
Pode ampliar acessibilidade.
Pode reduzir tarefas burocráticas.
E devemos aproveitar tudo isso.
Mas educação não é apenas transferência de informação.
Educação é relação, intencionalidade e transformação.
Por isso, não tenho medo de uma escola com inteligência artificial
Tenho preocupação com uma escola que utilize inteligência artificial sem saber para quê.
Uma escola que terceirize para a tecnologia aquilo que o aluno precisa aprender a fazer.
Ou que introduza ferramentas sofisticadas sem cuidar das relações, da convivência, da atenção e da saúde mental.
A tecnologia precisa liberar tempo humano, e não eliminar o humano.
Se a inteligência artificial puder retirar do professor parte da burocracia para que ele tenha mais tempo para observar seus alunos, ótimo.
Se puder ajudar a identificar dificuldades de aprendizagem mais cedo, ótimo.
Se puder ampliar acessibilidade e oferecer novos caminhos para aprender, melhor ainda.
Mas o centro da escola precisa continuar sendo a pessoa.
Depois de tantos anos trabalhando em educação, talvez essa seja uma das coisas em que mais acredito:
o futuro da escola não será decidido pela tecnologia mais avançada que conseguirmos colocar dentro dela.
Será decidido pelo que escolhermos fazer com essa tecnologia.
Precisaremos formar crianças e jovens capazes de pensar, aprender, conviver, fazer escolhas, lidar com frustrações e preservar sua humanidade em um mundo no qual máquinas serão cada vez mais capazes.
E talvez este seja o grande paradoxo da escola do amanhã:
quanto mais inteligente ficar a tecnologia, mais precisaremos investir naquilo que nos torna humanos.
A inteligência artificial pode nos ajudar a construir essa escola.
Mas ela não poderá construí-la por nós.
Porque a escola do amanhã continua dependendo de algo muito antigo:
pessoas cuidando de pessoas e ensinando outras pessoas a pensar.
“quanto mais inteligente ficar a tecnologia, mais precisaremos investir naquilo que nos torna humanos”.
