Leitura em Crise? Os Desafios da Compreensão Leitora na Educação Contemporânea

Artigo escrito por Claudia Xavier, consultora pedagógica da AB+

A leitura tem se tornado um dos grandes desafios da escola contemporânea. E talvez o mais importante aqui seja justamente isso: não se trata de um único problema, nem de uma causa isolada. O que vemos hoje é o resultado de um conjunto de fatores que foram se acumulando ao longo do tempo.

O aumento da procura por aulas particulares em Língua Portuguesa e Matemática, por exemplo, não é um dado neutro. Ele revela algo mais profundo: há fragilidades importantes nas aprendizagens básicas que chegam até os anos finais da escolarização.

Quando ler não significa compreender

Um dos pontos mais preocupantes está nas lacunas de alfabetização e letramento. Muitos estudantes avançam na escolaridade sem consolidar plenamente a leitura fluente e, sobretudo, a compreensão do que leem.

Em outras palavras: conseguem decodificar palavras, mas não necessariamente constroem sentido a partir do texto. E essa diferença muda tudo. Porque a leitura, quando não se transforma em compreensão, deixa de sustentar as demais aprendizagens.

A leitura ainda é “de uma componente só”

Outro aspecto que chama atenção é a forma como a leitura ainda é tratada em muitas redes de ensino. Em geral, ela permanece muito concentrada no componente de Língua Portuguesa, como se fosse responsabilidade exclusiva dessa área.

O problema é que a leitura não é um conteúdo isolado. Ela é uma competência que atravessa todas as áreas do conhecimento. Quando isso não é compreendido na prática curricular, a formação leitora fica fragmentada — e perde continuidade ao longo dos anos.

O impacto da pandemia e das desigualdades já existentes

A pandemia apenas evidenciou e ampliou algo que já estava em curso. Muitos estudantes tiveram menos acesso a experiências sistemáticas de leitura mediadas pelo professor, especialmente nos anos iniciais.

Esse período interrompido ou fragilizado deixou marcas importantes na base da alfabetização e do letramento, principalmente para crianças em contextos mais vulneráveis.

Não podemos esquecer que as crianças que foram alfabetizadas na Pandemia do Covid, hoje são estudantes no Ensino Fundamental Anos Finais.

Novos hábitos, novas formas de ler

Não dá para ignorar também as mudanças culturais. As novas gerações estão imersas em um ambiente de leitura constante — mas de outro tipo de leitura.

São textos curtos, fragmentados, acelerados, muitas vezes digitais. Isso não é, por si só, um problema. O ponto é que esse tipo de consumo de texto não substitui a leitura mais longa, que exige concentração, interpretação e permanência.

O que se perde, muitas vezes, é a experiência da leitura profunda.

O professor entre demandas e limites reais

Nesse cenário, o professor também está em uma posição delicada. Turmas cada vez mais heterogêneas, pouco tempo para intervenções individualizadas e uma pressão constante por resultados tornam o trabalho com leitura ainda mais desafiador.

A leitura exige acompanhamento, escuta, devolutiva, tempo pedagógico — e isso nem sempre está disponível na prática cotidiana da escola.

Ler também é compreender Matemática

Um dado importante ajuda a ampliar essa discussão: muitas das dificuldades em Matemática não estão no cálculo em si, mas na leitura dos enunciados.

Ou seja, há um componente de interpretação textual que interfere diretamente no desempenho dos estudantes. Isso reforça a ideia de que o problema da leitura não pertence a uma disciplina, mas atravessa toda a experiência escolar.

O que os dados mostram

As avaliações do INEP, especialmente o SAEB, vêm mostrando de forma consistente que uma parcela significativa dos estudantes do 5º e 9º ano não atinge níveis adequados de proficiência em leitura.

Muitos permanecem nos níveis básico ou abaixo do básico, o que indica dificuldades em interpretar, inferir e relacionar informações presentes nos textos.

O Brasil e o hábito de leitura

O estudo Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, ajuda a dimensionar esse cenário também fora da escola.

Os dados mais recentes mostram uma queda no número de leitores: em 2019, 52% da população se declarava leitora; em 2024, esse número caiu para 47%. Pela primeira vez, há mais não leitores do que leitores no país.

Mas talvez o dado mais significativo não seja apenas esse, e sim a perda da regularidade da leitura. Ou seja, mesmo quem lê, lê menos e com menor frequência.

A principal justificativa segue sendo a falta de tempo, seguida pelo deslocamento do hábito de leitura para outras formas de consumo de conteúdo, especialmente digitais.

A leitura começa antes da escola — ou não começa

Quando se fala em formação leitora, é impossível ignorar o papel da família. A pesquisa mostra de forma consistente que crianças que crescem em ambientes com livros têm maior chance de se tornarem leitoras.

Mas não é só a presença do livro que importa. O que faz diferença é o uso desse livro: ler junto, contar histórias, conversar sobre o que foi lido, estimular perguntas.

A leitura, nesse sentido, é menos um objeto e mais uma prática compartilhada.

Escola e família: quando uma não sustenta sozinha

É importante reconhecer, porém, que nem todas as famílias têm as mesmas condições de oferecer esse ambiente leitor. Escolaridade, acesso a livros e condições materiais influenciam diretamente essa experiência.

Por isso, a escola não pode ser apenas complementar. Ela se torna, muitas vezes, o principal espaço de construção da leitura como prática sistemática.

Quando essa articulação entre escola e família não acontece de forma consistente, as lacunas aparecem — e se acumulam ao longo da trajetória escolar.

O desafio da leitura hoje não é simples, nem linear. Ele envolve aspectos pedagógicos, sociais, culturais e estruturais.

Talvez o ponto central não seja apenas perguntar por que os estudantes não leem, mas entender como — e em que condições — a leitura está sendo construída ao longo da vida escolar.

Porque, no fim das contas, ler não é apenas uma habilidade escolar. É uma forma de estar no mundo.

Leitura em crise. Os desafios da educação contemporânea.

Referências

INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil. 6. ed. São Paulo: IPL, 2024. Disponível em: https://www.prolivro.org.br. Acesso em: 25 jun. 2026.

INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB): resultados e indicadores. Brasília: INEP, 2023–2024. Disponível em: https://www.gov.br/inep. Acesso em: 25 jun. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018. Disponível em: https://www.gov.br/mec. Acesso em: 25 jun. 2026.

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